O nosso convidado de hoje para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia é o ator, encenador e dramaturgo Tiago Sines. Nascido em 1989 em Vila Nova de Gaia, formou-se em teatro no Porto, na Academia Contemporânea do Espetáculo entre 2007/2010, e iniciou-se como ator em espetáculos produzidos pelo Teatro Experimental do Porto e Seiva Trupe, entre outras companhias.

Passou depois pelo Teatro Universitário do Porto, onde foi professor de interpretação, e pelo Circolando, Teatro da Trindade (Lisboa), Ama.Zonas, Público Reservado e ATE-Teatro Educação. Entretanto, em 2012, envolveu-se na criação da estrutura profissional gaiense Má Companhia, que se assume fundamentalmente como um espaço de reflexão, experimentação e criação artística, explorando novos e futuros caminhos alternativos em campos como a encenação, a performance, o trabalho coreográfico e a metodologia de ensaio.

Vimo-lo muito recentemente na cidade do Porto, na Associação Cultural Macaréu, no espetáculo “A Morte de Bunny Munro”, a partir da obra homónima do australiano Nick Cave, que interpretou e dirigiu, numa produção da Má Companhia, um dos “tesouros” por “redescobrir” do teatro nascido na nossa cidade. Passemos-lhe a palavra:

 

Na tua opinião, o que falta para que o teatro profissional em Gaia se constitua como alternativa à crescente oferta cultural da cidade do Porto?

Não sei se consigo, sinceramente, dar uma resposta holística a esta questão. Mas como artista e cidadão, acho que o principal motivo passa por um desinteresse, ou desinvestimento, devido á falta de retorno associado (ou não) a um défice sóciocultural. A (des)educação e formação de públicos é um fator fulcral no panorama. O Porto, por exemplo, conseguiu avançar para um programa artístico/cultural cosmopolita sem desprezar as tradições da cidade. Como gaiense vejo que aquilo que é local, ou referente às tradições da terra, tem o apoio do município e a adesão do povo. O S. Gonçalo, as festas de S. Cristóvão, o São Pedro da Afurada, etc, não têm falta de público. Contudo, se tentarmos dar algo diferente, encontramos “resistência”. No entanto os responsáveis pela cultura não podem desinvestir perante esse cenário. “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, já diz o adágio. Olhando para o papel da Câmara Municipal, e também das juntas de Freguesia, que têm a responsabilidade de educar os públicos, sinto que falta a Gaia um plano. Uma linha de raciocínio. Um esforço, por parte de quem controla os dispositivos, vulgo espaços de apresentação, no sentido de fazer e trazer pessoas ao teatro. Não existem concursos para os auditórios que definam um diretor artístico, responsável pela dinamização do espaço através de um programa, de teatro, diversificado. Ou até vários grupos – locais e/ou de fora – que dinamizem o espaço de forma democrática. Sinto que tudo é efémero e espaçado.  As coisas acontecem como eventos, aqui e ali, e isso impede que se criem hábitos. Não existe uma programação, consistente, que permaneça numa casa com oferta para um público mais diverso e, simultaneamente, oferta de programa escolar-educacional para os mais jovens. Durante muitos anos tivemos o TEP – com quem me estreei profissionalmente, no Auditório Municipal, precisamente – a fazer esse serviço. Sinto que esse modelo foi, com mais ou menos falhas, o mais bem-sucedido. A Seiva Trupe fez o mesmo, no Porto. Sinto que falta presença, a Gaia. As coisas estão, cada vez mais, de passagem. E são relações unilaterais, isto é, se não forem os artistas/agentes culturais a propor, pouco acontece. Havendo as oportunidades que mencionei, os artistas e programadores vão aparecer. Depois cabe, a quem desempenhar essas funções, “ler” o público e perceber como podemos educar e integrar as pessoas, em vez de esperar que descodifiquem códigos herméticos.  Mas tem de haver esse investimento da parte de quem regula os espaços. Porque, mesmo que exista a abertura – que nem sempre há – para receber propostas não-solicitadas, isso não fomenta uma continuidade.

 

Que memórias guardas da tua passagem pelo Auditório Municipal, no teu início de carreira, e da resposta do público à programação apresentada pelo TEP na época?

As memórias são boas! Eu trabalhei com o TEP em 2010, três meses depois de terminar o curso na Academia. Fizemos o “Felizmente há Luar!”, de Luís de Sttau Monteiro, com encenação do Cláudio da Silva. Nessa peça também entrava o meu irmão [Joel Sines] e lembro-me de comentar com ele que era um orgulho trabalhar com uma companhia com tanta tradição no teatro português, mas também a satisfação enorme de começarmos a nossa carreira juntos, em Gaia, num Auditório onde passei tantas vezes, porque íamos muitas vezes à Biblioteca Municipal. Na linha do que dizia antes, as memórias também são boas porque sentia uma estrutura, uma linha e um acompanhamento. Isso é muito importante para um profissional, em qualquer área. Lembro-me de já estar escolhido para o elenco e uma semana antes de começar ensaios ir ao Auditório Municipal ver uma peça do TEP, que estava em cena, com encenação do Nuno Cardoso. Ver um espetáculo, no palco que eu ia pisar em breve, deu-me um gozo tremendo e uma sensação de compromisso incrível! Mas também é demonstrativo da atividade teatral, nessa altura.  Daí dizer que essa parceria, TEP/Câmara de Gaia, foi um modelo de sucesso. O Júlio Gago era o diretor do TEP nessa altura e entrar no escritório, para conversar com ele, era um momento importante. Sentia que havia uma progressão na carreira e esse sentimento é importante. Tínhamos apresentações à noite para o público em geral e depois fazíamos uma temporada para as escolas. Fizemos cerca de 65 apresentações desse espetáculo! Quatro meses de trabalho, sem parar. A maior parte dos espetáculos foi para escolas, mas há noite ainda fizemos cerca de 20 apresentações. Esses espetáculos, a partir das 21 horas, aconteciam de terça-feira a domingo e nunca faltou público. Prova disso foi termos efetuado todas as apresentações que estavam previstas. Portanto a resposta foi positiva. Hoje em dia, uma temporada com esse número de apresentações é quase inexistente. Talvez só haja nos teatros nacionais, mesmo. Hoje em dia podes estar a ensaiar um mês inteiro para fazer uma ou duas apresentações. Aconteceu-me isso o ano passado, no [Teatro] Constantino Nery, devido a uma política de rotatividade, que tem o seu lado bom, mas também uma descartabilidade adjacente. É pena porque um espetáculo não evolui só nos ensaios, também evolui em cena.

 

Achas que o Auditório Municipal devia voltar a ter uma companhia residente ou defendes uma direção artística independente, sem ligação a qualquer estrutura teatral?

É uma boa pergunta… Uma companhia residente soa-me como um governo de maioria absoluta. Se desenvolver um bom trabalho, óptimo! Caso contrário, pode tornar-se uma coisa “aristocrática”. Quando digo “bom trabalho” refiro-me a boas produções teatrais mas, também, a oportunidades que proporcionem abrir casting para atores, convidar encenadores, encetar coproduções, etc. Agora, as pessoas têm legitimidade de escolher quem acham melhor para certos cargos, e isso pode passar por colaboradores mais habituais ou até por agentes com linguagens similares. Alguém que não está ligado a uma estrutura poderá ter uma postura mais imparcial e isso, num auditório municipal, parece-me positivo.  Pelo menos, no papel, existe menos suscetibilidade àquilo que podíamos chamar “um conflito de interesses”. Ou agenda. Existe uma terceira forma de estar, como o modelo que o [Teatro] Campo Alegre adotou nos últimos anos, que eu acho interessante. São oito companhias num modelo de residência de longa duração, que permite diversidade a nível de programa. Mesmo ao nível das linguagens: teatro, circo, dança, cinema, etc. Seja qual for o modelo, tem de haver uma consciência do setor. A criação de oportunidades é um departamento importante, a meu ver.

 

A terminar, fala-me de ti: quais são os projetos em que estás neste momento envolvido e quais são os sonhos ou desejos que estão por realizar e gostarias de concretizar a breve prazo?

No final de julho estive em cena na Macaréu-Associação Cultural, com um monólogo dirigido e interpretado por mim (“A Morte de Bunny Munro”), uma produção da minha companhia (a Má Companhia), a partir de um livro do Nick Cave. Foi uma experiência muito boa, a nível pessoal, pois montei toda a estrutura do espetáculo em 13 dias e foi bom para me pôr à prova em todas as vertentes que compõem o erguer um espetáculo. Também serviu para desconfinar artisticamente, em 2020. Assim como o público.  Fez parte de um ciclo de monólogos e solos promovido por um colega de teatro – o Emanuel Rodrigues – e foi uma oportunidade que quis agarrar para me pôr ao trabalho. Gostava de o repôr em breve, durante mais tempo, para poder explorar mais o objeto e partilhá-lo com mais pessoas. Quanto aos planos, alguns tiveram que ser adiados, devido á pandemia. A Má Companhia ganhou uma bolsa para uma coprodução com a Mala Voadora [companhia sediada no Porto], que estava previsto acontecer em maio, mas agora só se realiza no início de 2021. Portanto, agora, há que trabalhar nisso e noutras ideias. Quero levar mais projetos a cena, porque o prazer de fazer um espetáculo com as nossas propostas e linguagem é único. Nesse sentido queremos ver se arranjamos um espaço fixo para a companhia poder apresentar espetáculos com mais regularidade, uma vez que não somos subsidiados. A ver vamos! Ao mesmo tempo desejo continuar a trabalhar como ator/performer com outras estruturas e encontrar pessoas que me desafiem e façam crescer, de preferência.  Como ator também gosto, obviamente, de interpretar ideias que não partem de mim e encontrar paralelismos que tornem a experiência um pouco minha.  Esse também é o trabalho de um intérprete. Portanto, o caminho é este: pôr em cena as minhas ideias e performar como ator.

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