Rafaela Ribeiro de Oliveira tem 16 anos e é pianista. Divide-se entre duas escolas, estuda música a nível superior e frequenta o curso de Ciências a nível secundário, sonha com concertos e recitais mas também pensa em trabalhar em investigação física ou na área de matemática. É embaixadora na candidatura do município de Vila Nova de Gaia a Capital Europeia da Juventude 2024, e apesar da sua idade tenra, já participou em programas de televisão, que lhe trouxeram, acima de tudo, visibilidade e aprendizagem.

 

Como surgiu este gosto e esta paixão pela música e com que idade?

Nós lá em casa sempre tivemos muito gosto pela cultura, ouvimos muitos cd’s, vamos assistir a muitos espetáculos e quando eu tinha cinco anos, os meus pais decidiram inscrever-me na música. Eu nunca tinha tido contacto com a música, os meus pais não são músicos, o meu pai apenas teve umas aulas de guitarra quando era novo. Inscreveram-me no piano e eu gostei muito, desde aí continuei sempre.

 

Do momento em que começaste a ter aulas até ao dia de hoje, como foi este processo de te apaixonares cada dia mais pela música e pelo piano?

Aconteceu muita coisa entretanto. Quando comecei, não tive piano nos primeiros meses e, por isso, o meu pai desenhou-me um piano numa cartolina e eu treinava lá. O primeiro ano foi muito interessante, também pelo professor que tive, pela forma como dava as aulas, que era muito adequada para crianças e ele era muito engraçado. Isto foi no Conservatório de Gaia, onde continuei até ao quarto ano, até ao final do primeiro ciclo, que coincide com a altura em que comecei a participar em alguns concursos. Depois fui para o Conservatório do Porto. Aí já aconteceram umas coisas mais duras e aos 15 anos tive a felicidade de entrar para o ensino superior, para a ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo) e é onde estou a estudar com a professora Sofia Lourenço que também é incrível.

 

És muito novinha. Pretendes que a música seja o teu futuro?

A música vai sempre fazer parte da minha vida. Eu não decidi estudar só música no 10º ano, decidi também fazer o curso de Ciências. Acho que a música vai estar sempre na minha vida mas espero um dia não ter de decidir entre a música ou ciências e poder sempre continuar com as duas porque acho que as duas áreas se complementam e também é muito difícil seguir só com a música, ainda para mais cá em Portugal.

 

Sendo que as artes no geral, não só a música, são um bocadinho negligenciadas no nosso país, isso é uma preocupação?

Sim, e principalmente música clássica que é o que eu estou a estudar, apesar de tocar também outras coisas. Daí a minha escolha de seguir outra área, no caso ciências.

 

Estás a aproximar-te, inevitavelmente, para o final do secundário, tens uma ideia  de profissão que queres seguir, ou ainda estás a ponderar as hipóteses?

Ainda não sei, gosto muito de investigação e investigação na área da física e gosto muito de matemática e física, gostava muito se seguir algo relacionado com essa área.

 

E na música, tencionas manter-te apenas como artista, ou imaginas-te um dia a ser, por exemplo, professora?

Não sei se gostava muito de ser professora. Eu gosto de explicar coisas às pessoas e ensinar, mas não sei se gostava de ser professora. Tinha de experimentar um dia para ver se gostava.

 

Como está a vida da Rafaela, em pleno ano 2020?

Foi difícil e foi mau e bom ao mesmo tempo porque eu estava a fazer, antes desta história do vírus, ensino secundário e ensino superior, o que dava uma grande trabalheira, sempre a correr de uma escola para a outra e quando vieram as aulas online até me ajudou bastante, porque conseguia estar em casa e conseguia regular muito melhor as coisas e os horários. Por isso, foi muito bom, deu para aproveitar mais as duas escolas, apesar que, as aulas teóricas da ESMAE resultaram muito bem, mas acho que as de piano mesmo, é muito difícil ter as aulas de piano à distância, mas, no geral, correu bem.

 

E como é a Rafaela enquanto aluna?

Acho que sou boa aluna, eu gosto muito de escola, não sou daqueles alunos que não gosta de escola, eu gosto, gosto de aprender e de ter aulas e a área que eu estou a seguir, gosto imenso, principalmente de matemática e fisico-quimica…

 

Mas é uma área difícil e desafiadora…

Sim, muita gente diz isso, mas eu sempre tive muita facilidade, em matemática principalmente, e gosto bastante. As minhas notas foram boas, tirei 20 a tudo no secundário. Acho que este meu primeiro ano de ensino secundário correu bem.

 

Vamos recuar um pouco, para percebermos, quando surgiu, e porquê, o desejo de participar num programa de televisão, e como foi a experiência? Havia muito nervosismo?

No Got Talent 2017 foi um convite, eu não me inscrevi para participar. Eles ligaram e perguntaram se eu gostava de participar e eu disse que sim, ia ser uma experiência nova e diferente, ir à televisão e ver como é que o espetáculo é feito, que é completamente diferente do que nós vemos na televisão a partir de casa. Foi uma experiência engraçada.

Nervosismo não tive assim muito, principalmente agora na Batalha dos Jurados, não notei assim muita pressão. O que notei assim de mais diferente foi a falsidade da televisão, porque aqueles vídeos que fazíamos antes de entrar em palco e assim, é tudo encenado e ver esse lado da televisão também foi bom. Mas o principal foi mesmo ver como um espetáculo é feito, eles montam aquele cenário todo que dá em direto em quatro ou cinco dias, quase uma semana inteira para algo que depois dura duas horas. Nós só falamos com os mentores à frente da câmara, cinco minutos e depois eles até faziam mesmo questão de não falarmos com eles, mas, mesmo assim, além disso tudo, é um programa que dá muita visibilidade aos artistas que vão lá e eu notei isso., quando fui ao Got Talent muita gente passou a conhecer-me e essa é a parte boa do programa. Não a única coisa boa, também conheci muita gente, o rapaz violoncelista com quem toquei recentemente, já conhecia a irmã dele mas não a ele, conheci-o no programa e depois começamos a tocar juntos, ele é um músico incrível. Foi muito interessante trocar ideias com artistas de outras áreas, com artistas de circo e de dança e perceber a forma de organização do espetáculo, a organização das câmaras, os ensaios gerais, foi também um lado muito bom e que a maior parte das pessoas da minha idade não tem essa oportunidade, e eu tive.

 

Recebeste também o Troféu Revelação 2018 do Jornal Audiência, foste aos Açores recebê-lo. Como foi a experiência?

Foi muito bom ir lá à Ribeira Grande e tocar naquele teatro. Eu não sabia que ia receber o prémio e quando chamaram o meu nome, eu fiquei muito surpreendida, porque foi uma surpresa organizada entre o Sr Ferreira Leite (diretor do jornal) e os meus pais. Mas além de ter tocado e de ter recebido o prémio, ter estado lá na gala e ver as coisas a acontecer, todo o espetáculo, foi muito bom e só posso agradecer por me terem convidado.

 

Quais são os sonhos da Rafaela no que diz respeito à música?

Quero sempre continuar a tocar, a fazer recitais e a participar em concursos e, agora, acabar a ESMAE, continuar a estudar com a minha professora atual. Gostava de dar concertos, claro, e ir ao estrangeiro, experimentar tocar lá fora. Este ano inscrevi-me num concurso em Espanha, em Sevilha, mas nem sei como vai ser a final com esta história toda do vírus, eles estavam a pensar não fazer online mas se calhar vai ter de ser.

 

Apesar de seres já uma artista a nível nacional, és de Vila Nova de Gaia. Achas que município dá valor aos seus artistas?

Sim, acho que sim. Ainda para mais agora convidaram-me para ser uma das embaixadoras da candidatura de Gaia à Capital Europeia da Juventude em 2024. Acho que dá valor aos seus artistas, apesar de ser difícil cá em Portugal, mas também já me convidaram anteriormente para a Bienal de Arte em Gaia e o presidente da câmara, também sempre que pode, vai ver os meus recitais. Sim, Gaia dá valor aos seus artistas!

 

Como foi este espetáculo mais recente? Foi o primeiro que tiveste desde o início desta pandemia, isso tornou-o diferente?

Tocar na ribeira de Gaia foi muito bom, naquele sítio lindíssimo. Também foi diferente por causa das normas de segurança devido ao vírus. O último espetáculo que tinha dado tinha sido no dia 4 de março, mesmo antes desta situação e da quarentena começar, e este foi o primeiro espetáculo que eu fiz depois desta situação. Foi diferente, as pessoas estavam todas separadas, muitas delas com máscara, mas foi muito bom poder voltar a fazer concertos e ter aquela gente toda, mesmo com a situação que estamos a viver, consegui ter lá cerca de 80 pessoas.

 

Mostrou que é possível continuar a apostar na música apesar da situação atual?

Sim, mostrou. No dia anterior também tinha ido ver o Pedro Abrunhosa nas Noites de Verão de Gaia e as pessoas estavam todas afastadas, tudo a cumprir as normas de segurança. É diferente, não há a mesma sensação de festival ou espetáculo, mas acho que também é uma forma de, aos poucos, voltar à normalidade.

 

Se pudesses dar um conselho a um jovem que estivesse agora a iniciar-se no mundo da música, que conselho davas?

Para trabalhar muito, que é o que é preciso, mas principalmente para gostar daquilo que faz.

 

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