Com o espetáculo “Vamos ao Parque” em cena, no Teatro Maria Vitória, Hélder Freire Costa já pensa no centenário do Parque Mayer, que se comemora no próximo ano. Acreditando que este é o cartão de visita de Lisboa, o produtor continua a apostar em jovens para integrar os seus espetáculos e, desta forma, manter viva a tradição do teatro de revista.

 

 

 

Este é um espetáculo com muita emoção e muita juventude…

A alma do espetáculo é exatamente o público que nos dá força para continuarmos. O espetáculo é muito bom, de facto, é muito divertido, foi feito com essa intenção. Quando partimos para isto falamos e os atores concordaram não se falar de pandemia, porque morreu muita gente. Não lembrar coisas tristes. Lembrar apenas coisas alegres, fazer o público divertir-se que é aquilo que desejamos. E parece que estamos a ter razão, porque o público vem para aqui e diverte-se, ficam contentes e quando vão embora muita gente se dirige a mim a dizer que gostaram muito do espetáculo, que se fartaram de rir e que enquanto aqui estiveram esqueceram as agruras da vida. Ou seja, a intenção foi atingida.

 

Além dos intérpretes e dos atores mais veteranos como o Miguel Dias, Paulo Vasco e outros, notou-se na malta mais nova um brilho contagiante que encantou a plateia.

É verdade. Estreamos três pessoas em revista, também a Dora, que nunca tinha feito revista, mas os mais novos são três, a Ana, o Leitão e a Rita Raposo. Eles foram contagiados e, de facto, estão aqui na revista como se tivessem já há muitos anos. Estão com um entusiasmo fantástico, estão muito contentes, todos os dias nos dizem que estão com muita satisfação aqui no Maria Vitória, que tinham uma ideia diferente e que se sentem muito bem aqui.

 

O Teatro Maria Vitória e o Hélder Freire Costa continuam a produzir talentos de grande qualidade.

Sim, a intenção é essa. Estamos todos de passagem e a pandemia veio demonstrar isso. Portanto, se não aproveitarmos os momentos bons para fazermos coisas boas, não valeu a pena termos vindo ao mundo. Tenho apostado muito na juventude, não esquecendo os mais antigos, pelos quais tenho um grande respeito, todos eles são muito bons, mas neste casting tivemos sorte que apareceram elementos muito bons, e alguns ficaram pelo caminho mas eram muito bons também. Eles estão a vir das escolas, do Teatro Experimental de Cascais, da Casa do Artista, do Chapitô, e vêm com uma disposição fantástica de agradar. E, de facto, houve aqui uma disputa muito grande e ficaram três dos melhores e felizmente são muito bons.

 

Um espetáculo onde a juventude é a maioria, sendo que o teatro de revista é tradicionalmente para gente mais veterana. Não será que este elenco jovem pode vir a revolucionar as plateias do Teatro Maria Vitória?

Esperamos que sim, a intenção é essa. Nós estamos de passagem, portanto, isto tem de continuar. Eu assim fiz quando foi “A Prova dos Noves”, eu e o Vasco Morgado, estamos associados, e pensamos que estavam a adoecer e desaparecer grandes figuras do nosso teatro e se não procurássemos novos elementos o teatro de revista acabava. E nós procuramos e acertamos neles todos, hoje são as primeiras figuras que andam aí. Aqueles que anunciados levam, de certeza, público, com ou sem apoio da televisão o público vai atrás deles. Portanto, estamos a produzir uma nova fornada, a caminhada é essa, é procurarmos cada vez mais gente jovem e, felizmente, temos acertado.

 

Que mensagem gostaria de deixar a quem possa vir assistir ao espetáculo do Grande Porto ou dos Açores?

O que posso dizer é exatamente o título do espetáculo, “Vamos ao Parque”, porque vindo ao Parque vêm ao Maria Vitória. Aconselho porque saem daqui satisfeitos, temos mensagens fabulosas, pessoas que nos escrevem cartas maravilhosas, a dizer coisas fantásticas que às vezes já nem entendemos porque já vimos tantos espetáculos que não acreditamos que seja assim como o público diz mas o público é o grande juiz e diz que realmente o espetáculo é muito bom, que os diverte muito, fala de coisas importantes a brincar, e ainda bem que assim é porque é sinal que os autores que são jovens também que estão com o público, mesmo o mais antigo.

 

Quando muitos anunciam o fim de Hélder Freire Costa há vários anos, qual é o segredo para continuar a surpreender em cada espetáculo que apresenta?

O segredo é que eu ainda cá estou. Enquanto cá estiver lutarei. Sou um homem de luta, sou touro, nasci em abril, portanto, sou um homem de luta. Mas o segredo principal é eu reunir à minha volta grandes equipas. E esta equipa do Miguel Dias, do Flávio Gil e do Renato Pino é sensacional. E depois os elencos, também vêm, muitas vezes não acreditam porque acham muito jovens mas depois de começarem os ensaios começam a ver que aqui se faz espetáculo a sério. Porque o Flávio Gil, apesar de ser um jovem que fez recentemente 30 anos, é um tipo virado para a frente e não entrega a ninguém aquilo que ele sabe fazer. Portanto, tem acertado e tem sido esse o segredo, é que as equipas são muito boas. Aquelas equipas em que muita gente não acredita surpreendem depois as pessoas. Ainda há pouco tempo quando o Flávio Gil era o encenador, ninguém acreditava, diziam que eu estava maluco. Hoje está a obra feita e toda a gente vê que acertei mesmo em cheio, o Flávio Gil é realmente um grande profissional do espetáculo, indiscutível. E agora já tudo se rende, e já o desafiam para várias coisas mas ele é fiel ao Maria Vitória. Claro que ele atualmente não está cá a representar, teve nos últimos dias numa substituição aqui, mas está sempre disponível para estar no Maria Vitória que é, como ele diz, “a casa dele”.

 

O espaço Parque Mayer, que já voltou a ser propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, e havendo mudanças nos órgãos autárquicos recentemente, o que espera que este novo executivo camarário e como espera que olhe para o Maria Vitória e para o Parque Mayer?

Eu espero que olhem com bons olhos porque o candidato esteve aqui, o engenheiro Carlos Moedas, e viu como o público reagiu. Acho que ele saiu daqui muito emocionado, muito bem impressionado, e eu próprio fui convidado para a cerimónia de tomada de posse. Sou um grande amigo e admirador do Fernando Medina, o presidente cessante, estou com uma boa impressão do Carlos Moedas, que não a tinha. E também tomou posse aqui no Capitólio o novo executivo da Junta de Freguesia, cujo presidente é neto de duas grandes figuras do nosso teatro, Laura Alves e Vasco Morgado. Estive também presente nessa tomada de posse. E vamos ver como as coisas se vão suceder porque as promessas são mais que muitas, depois as ações é que nem sempre acontecem. De Fernando Medina tivemos um grande trabalho na cidade de Lisboa, eu sou lisboeta, nascido em Lisboa, na parte importante que é a freguesia da Estrela, junto ao rio Tejo. Lisboa está linda, quem andar a passear por Lisboa encontra uma praia na Praça do Comércio, estamos com uma cidade bela e espero que Carlos Moedas continue o desenvolvimento desta Lisboa que eu amo.

 

Acredita que a simbiose e a proximidade ideológica do presidente da Junta de Freguesia com o presidente da Câmara e tendo o presidente da Junta uma costela deste tipo de casa de espetáculo e deste Parque Mayer, que o futuro pode ser risonho?

Espero que sim, vamos ter um trabalho, já marquei com o Vasco e vamos ter uma reunião porque já temos apalavrado trabalho a fazer. Vamos entrar no próximo ano no centenário do Parque Mayer e do Teatro Maria Vitória, portanto, devemos fazer uma obra conjunta para festejar esse grande acontecimento porque o Parque Mayer tem sido o cartão de visita da cidade de Lisboa. Milhares de pessoas conheceram Lisboa através do Parque Mayer e dos seus teatros. Espero que a Junta e a Câmara estejam para aqui viradas e que participem connosco num grande feito aqui no Parque Mayer. Temos já ideias e contamos com isso.

 

 

 

Alberto Sousa

blank“Tenho o meu nome nesta frisa, mas não é só por este teatro. Eu também fui ator de teatro, não profissional, mas amador. Com 16 anos comecei a frequentar o Teatro Maria Vitória, porque era amigo do proprietário do alfaiate que existia e que fazia as roupas. E com essa idade, passei a ir a todos os teatros e então aqui, por ano, vinha imensas vezes, via, no mínimo, 10 vezes a mesma peça.

Fiquei emocionado com o espetáculo porque houve uma certa diferença em relação a mim. Sinto-me um bocadinho melhor porque com 91 anos qualquer coisa que temos é sempre muito difícil de ultrapassar. E agora tenho-me sentido muito melhor e estava bem disposto”.