A Associação Cultural Porta 27 foi edificada em 2011, por um grupo de artistas formados na ACE – Academia Contemporânea do Espetáculo. O humor parece ser a principal paixão dos atores que pertencem, atualmente, a esta estrutura e que pretendem continuar a apresentar espetáculos com um cunho pessoal e diversas abordagens à comédia. Tiago Lourenço, Diretor Artístico da Porta 27, e Iúri dos Santos, ator desta companhia de teatro, contaram, em entrevista ao AUDIÊNCIA, a história, a missão e os sonhos desta associação, que anseia construir uma escola de formação e realizar espetáculos na sala principal do Teatro Sá da Bandeira.

 

 

 

Qual é a história da fundação da Associação Cultural Porta 27?

Tiago Lourenço (TL): A Porta 27 inicia-se em 2011 e eu sou um dos fundadores, juntamente com três outros artistas, sendo que alguns deles já não fazem parte desta estrutura desde 2015 e 2016. O projeto depois de nós, em 2009, termos terminado a nossa formação na ACE – Academia Contemporânea do Espetáculo, que é uma escola de formação profissional, altura em que iniciamos o nosso percurso profissional. Inicialmente, quando criamos a Porta 27, o intuito era tentarmos ter alguma estabilidade, uma rotina, mais presente, artística, porque quando acabamos uma formação é muito difícil, nos primeiros tempos, termos trabalho, uma vez que o mercado está saturado e é mais fácil, para quem contrata, pegar em pessoas que já conhece pelo trabalho que fazem, do que em jovens e, infelizmente, na altura, em 2011, o apoio que havia a jovens emergentes era mais pela comunidade artística, do que pelos órgãos, é bastante difícil. Então, sentimos a necessidade de criarmos um projeto que nos fizesse sentido, tanto artístico e, também, procurar no registo cómico, que é onde estamos inseridos, e colocar o nosso cunho e então foi isto, foi arrancar numa loucura de tentarmos ter o nosso projeto, tentarmos ter trabalho com mais frequência e demonstrarmos que, na altura, aqueles quatro artistas, tinham alguma coisa para dizer individualmente e como grupo.

 

A Porta 27 foi fundada em Vila Nova de Gaia, mas encontra-se, atualmente, em transição para a cidade do Porto. O que está na base desta mudança?

TL: A Porta 27, legalmente, está sediada em Vila Nova de Gaia, no Centro Comercial da Arrábida, mas já não exerce lá as suas funções, apesar de termos lá, ainda, a sede. Neste momento, está numa fase de transição para o Porto, onde temos mais incidência e é onde faz mais sentido que ela esteja, devido ao nosso percurso.

 

O que vos levou a tomar esta decisão? Acreditam que Vila Nova de Gaia não tem estruturas para dar resposta às vossas necessidades?

TL: Pelo contrário, Vila Nova de Gaia tem apostado bastante em projetos que sejam fundados em Gaia. Porém, o nosso percurso é tanto saltimbanco, que nós moramos no Porto e desde que estamos mais estáveis na Sala Estúdio Latino, do Teatro Sá da Bandeira, estamos aqui com mais frequência. Não fez sentido, na altura, porém agora já penso de uma forma diferente, ter ali uma loja que só servia para fazermos reuniões, pois não é um espaço grande onde eu possa fazer formação e continuar com uma despesa. Nós, atualmente, estamos com formações, que estão a decorrer, aqui, no Porto e não fez, na altura, sentido continuar em Vila Nova de Gaia, porque o projeto não estava tão solidificado como está hoje, ao ponto de conseguirmos ter uma loja maior, para formações, para os ensaios e para o que fosse necessário. Então, decidimos vir para o Porto, só pela questão de ser mais prático para todos.

 

Com produções dedicadas à infância, mas não infantis, porque é que se dedicaram a este registo cómico e a este público?

TL: Nos primeiros anos, até 2014 ou 2015, creio, a Porta 27 fez, maioritariamente, espetáculos para o público geral. Contudo, é difícil criar uma corrente de público, sem qualquer tipo de apoio, para chegar a mais pessoas e à comunicação social, pois é muito difícil conseguirmos chegar a esses veículos. Então, começamos a fazer espetáculos para a infância e foi onde sentimos que havia maior abertura para nos receberem, seja em espaços culturais, como em salas de espetáculo e, também, nós sentíamos que as pessoas aderiam aos nossos espetáculos e que a procura era muito maior. Depois, em 2016, que é quando eu pego na história de “João Pateta”, de Guerra Junqueiro, e faço uma adaptação, é quando eu sinto uma procura tão grande, que dava uma estabilidade à estrutura e a todos os elementos que a estrutura tem, seja convidados, seja pessoas criativas que nos fazem cenários e figurinos, e decidi continuar nesse caminho, para começar a ganhar uma corrente de público e para, mais tarde, que é agora, em 2021, começar, novamente, a fazer espetáculos de adultos, que é onde, também, queremos estar com alguma frequência. Só que os espetáculos infantis traziam-nos estabilidade seja financeira, seja, também, de rotina, isto é, de termos espetáculos em massa e nós continuamos nesse caminho e nesse percurso.

 

O que vos inspira na criação dos espetáculos?

TL: Depende. Cada espetáculo tem motivos diferentes.

Iúri dos Santos: O objetivo mais prático é saber o que é necessário, nomeadamente se é fazer um espetáculo mais chamativo ou se é fazer um espetáculo baseado numa obra do Plano Nacional de Leitura, para os alunos. Portanto, começa por aí e depois temos de escolher a peça, ou o livro e reescrevê-lo, tornando-o mais acessível e mais interessante para crianças, como para adultos. Nós preocupamo-nos sempre com isso, para não ser chato para um, nem chato para outro e, também, procuramos sempre fazer uma interpretação nossa e tentar dar outra cor à história, por exemplo, no caso da peça “As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho”, temos o facto do lobo ser vegetariano, no caso d’“O Cavaleiro da Dinamarca”, temos a junção e a fusão de duas histórias. Então, tentamos sempre dar um toque nosso à história, para não ser sempre a mesma coisa. Mas é um percurso diferente.

TL: Nós começamos pelo PNL, que é o Plano Nacional de Leitura, com o João Pateta e todas as criações que existem agora, para a infância, não são obrigatoriamente parte do Plano Nacional de Leitura de uma escola, por exemplo, a peça “Os Piratas também se apaixonam” não faz parte do PNL, mas escolas procuram, porque o nosso registo deu-nos alguma coisa que cativava as crianças, cativava os professores, e claro independentemente de ser do PNL ou não, há um lado pedagógico em todas as histórias que fazemos, seja, neste caso, a amizade, seja, como na produção “A história de João Pateta”, a importância de uma mãe na educação de uma criança, ou, como na peça “As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho”, a questão do preconceito, porque nós olhamos para um lobo e dizemos que é um animal mau e não é, porque ele não queria, nem nunca quis, fazer mal à Capuchino, porém é só uma interpretação e a história é contada pela avó que, para nós, tem a ver com sabedoria, pois nós temos avós na nossa vida, então é dar ao público visões diferentes. Eu sempre digo que os nossos espetáculos é como se fossem rascunhos, que pode ser moldáveis, porque os adultos podem tirar uma interpretação e as crianças outra, porque o que significa uma frase em português para uma criança, pode significar outra para um pai. Então, as pessoas vão para casa e podem tecer várias interpretações do mesmo objeto e é isto o que me interessa.

IS: Nós criamos os espetáculos para que sejam mais fáceis de absorver. No caso de espetáculos para várias faixas etárias, por exemplo, “O Cavaleiro da Dinamarca” é para o 5º ou 6º ano, mas nós também temos o “Senhor Camões, Terra à Vista”, que é para o 9º e o 10º ano, como a reconstrução do “Auto da Barca do Inferno”, que é para o 7º e eu lembro-me de, nessas idades, nós irmos ao teatro, mas não estávamos muito interessados e, aqui, o objetivo é tornar acessível, para que eles consigam absorver o máximo de informação possível e não desistam de ver uma peça de teatro. Toda a nossa abordagem é sempre pela comédia, com situações que se passam no dia-a-dia, também, para ser mais fácil a conexão com o público e vai por aí.

 

Quais foram as peças mais importantes que a Porta 27 já apresentou desde a sua fundação?

TL: Uma das peças mais importantes foi, sem dúvida, a primeira, “Senha 44”, que falava sobre um super-herói que ia à Segurança Social perceber como é que se trabalhava a Recibos Verdes, após o 1º ano de isenção. Logo, desde aí, a produção mostrou uma postura da companhia diferente, em relação a vários temas. Eu acho que foi muito importante o primeiro espetáculo. Claro que, “Procura-se Detetive”, também, foi um espetáculo muito interessante, porque inserimos num festival que era o Manobras, que houve aqui no Porto e por acaso estivemos presentes nas duas edições. “A história de João Pateta”, também, foi relevante pela procura que teve e pelo facto de ter sido o primeiro espetáculo que eu fiz depois daquela pequena paragem, da saída e da mudança dos elementos, porque foi o primeiro espetáculo que eu escrevi e foi quando criei a equipa que tenho até hoje. Pela importância, o “Senhor Camões, Terra à Vista”, que foi, para nós, o espetáculo mais difícil de realizar, porque foi estreado na comunidade portuguesa, na Suíça, e é um espetáculo que fala sobre a importância de Luís Vaz de Camões para a literatura portuguesa, no qual fizemos um paralelismo com o século XXI, porque Camões foi exilado no século XVI e os portugueses foram convidados a sair do país no século XXI. Então, estrear esse espetáculo num país onde as pessoas estão, que não é o deles, teve uma importância muito grande e é o que nos abre para a ida para o estrangeiro e até onde temos estado todos os anos, ainda na semana passada estivemos na Alemanha, que nunca estivemos presencialmente, mas queriam-nos, porque o passar a palavra, o passar de boca em boca tem sido a forma de termos acesso a mais público.

IS: Não é só pela mensagem, mas pelo desafio, porque nós tentamos sempre dar aquele toque de leveza a todas as peças, mas pegando em Camões, torna-se muito mais complicado.

TL: É um risco muito grande, porque nós não queremos desrespeitar o artista.

IS: Acima de tudo, é importante passar mensagens. Os alunos dão as obras e, então, temos sempre de pegar nelas e, no caso de Camões, é sempre mais difícil e, por isso, eu acho que foi importante pelo desafio e o resultado foi muito bom.

TL: “As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho” eu acho que, também, foi uma peça importante, pelo encerramento da quarta parede, porque quase todos os espetáculos da Porta 27, são interativos com as crianças, por exemplo, no caso da produção “A história de João Pateta”, ainda mais, porque ao longo do espetáculo vamos fazendo umas perguntas retóricas, às quais o público responde, porque sente que é também o João Pateta. As crianças revêm-se sempre no João Pateta em alguns aspetos e, então, assim sabemos que elas estão a acompanhar a história, que é uma coisa que nos interessa bastante. Já n’”As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho” há uma quebra e o encerramento dessa quarta parede.

IS: Mas não é totalmente, porque sempre temos as personagens da Avozinha e do Lobo Mau, que fazem os mínimos dos mínimos, mas comparado com os outros espetáculos perdemos a muleta de poder trabalhar com as reações do público, falando com ele, mas conseguimos criar algo que faz com que as crianças consigam ficar cativadas a ver e a ouvir e eu acho que deu resultado. A seguir a isso é a próxima, “Querido Luís”.

TL: “Querido Luís” é um espetáculo para adultos e, também, a importância que tem este espetáculo, pelo Luís Vaz de Camões, pela experiência que tivemos na Suíça, com um ator que, também, se chamava Luís, que já não faz parte da estrutura e é um bocado dúbio se sai.

 

Neste seguimento, a vossa próxima produção, intitulada “Querido Luís”, vai estrear no próximo mês de junho, de 9 a 13, e é dedicada aos mais velhos. Para além disso, também é uma peça com uma grande importância para a Porta 27. Podem falar-me sobre a relevância desta produção?

TL: “Querido Luís” é uma necessidade tanto minha, como de toda a companhia, aliás mesmo a Patrícia Gomes sente essa necessidade e não faz parte, enquanto atriz, deste projeto, de experimentar coisas diferentes e fazer espetáculos para adultos, porque enquanto artistas, há uma sede de fazer projetos diferentes e não estar só a fazer espetáculos para crianças. Este espetáculo foi escrito por mim e é um agradecimento a um ator que fez parte da Porta e, não sei de que forma, mas eu nunca soube lidar com a saída de nenhum elemento da estrutura, nem com mudanças que não fazem parte dos planos, pelo que tudo isso é sempre estranho para mim, porque sempre dissemos que a Porta não é uma companhia, é uma família, porque como passamos muito tempo juntos e criamos ligações bastante fortes, mesmo a nível pessoal, e foi estranho alguém sair. Eu nunca hei de saber se foi, na íntegra, pela covid-19 e por começar a ser escasso o número de apresentações que havia, ou melhor, por ser quase nulo em alguns períodos, pois estivemos muito tempo em casa. Então, eu tive uma necessidade de escrever um agradecimento pela presença que ele teve na estrutura, pelos projetos que juntos fizemos, por tudo o que a Porta conquistou com ele, enquanto ator. Então, escreve-se o “Querido Luís”, mas é um espetáculo no qual parece pesada a mensagem como é criado, mas não tem nada a ver. Nunca é pesada, é uma coisa leve, que se consome bem e quer chegar a outro tipo de público, porque apesar de ter alguns momentos nos quais a linguagem é mais complexa, a forma como a peça é feita é simples.

 

Há sempre uma mensagem em todas as vossas peças. Qual é o ensinamento que o público poderá retirar desta produção?

TL: No espetáculo, poderá sentir-se um pouco o abandono do setor cultural, em tempo de pandemia. Mas, também, algo muito importante que refere é que todos os artistas são importantes para um espetáculo acontecer e não falamos só dos atores. Quando um técnico não está presente, o espetáculo pode não ser um espetáculo, ou seja é o backstage, mas isto sejam os criativos de luz e som, sejam os figurinistas, porque se esses setores não existirem, o espetáculo não acontece e, neste caso, o nosso técnico, Rodrigo Gomes, saindo do espetáculo, o espetáculo pode não acontecer. Se o operador de som não estiver presente, isto é, se não tiver condições para estar presente, não há espetáculo. A peça aborda, também, um pouco o preconceito, porque a figura que vem ajudar, neste caso, a personagem do Luís Vaz de Camões, é um guna, que é uma figura muito típica do Porto e um guna, independentemente de como se veste, pode ser alguém que tem algum conhecimento cultural e, por acaso, ele tem bastante conhecimento cultural sobre Luís Vaz de Camões. Então, nós pegamos no povo portuense e trouxemo-lo para dentro de cena, mantendo viva aquela forma de falar e de estar. É mais um teatro absurdo.

IS: “Querido Luís” não é um trabalho realístico, nós estamos a fazer uma caricatura. A peça começou com um objetivo, mas, desta vez, não existe uma mensagem certa que nós queremos passar, pois podem ser várias coisas.

 

Referiram que estiveram muitos meses em casa. Qual foi o impacto da covid-19 nesta companhia de teatro? De que forma é que sentiram a pandemia?

TL: O impacto foi a nível emocional, mas foi pior. Apesar de estar mais próximo do Iúri, eu lembro-me que quase todos os dias ligava para a Patrícia e para os restantes elementos, para saber como é que estavam as condições financeiras em casa, para saber o que se passava, porque a qualquer momento poderia haver escassez de condições, ao ponto de termos de nos ajudar uns aos outros e foi complicado, porque quando vem a pandemia, eu e o Iúri, por acaso, estávamos fora de Portugal, estávamos nas nossas férias e estávamos no Brasil a receber uma quantidade incalculável de cancelamentos, que não são palpáveis. Nós sentimos um abandono, porque para quem trabalha com as escolas é muito complexo, porque é muito mais fácil, eu senti isso, por exemplo, haver uma rutura, pois muitos órgãos, muitas Câmaras, decidiram que as crianças não tinham atividades durante um período letivo e foi muito ingrato, porque existem muitas atividades extracurriculares, muitas estruturas de teatro para a infância que vivem disso, muitos artistas que vivem disso e eu acho que, inicialmente, foi mais fácil romper com tudo e nós sentimos um abandono muito grande, porque é o nosso ganha pão. A estrutura não é financiada, vive dos espetáculos, vive da itinerância e, até hoje, ainda sentimos que houve um descuidado muito grande, das partes com quem nós já trabalhamos há muitos anos, como escolas, como Câmaras, de não haver uma sensibilidade de, mal fosse possível, mal abrandasse um pouco, mal isto estivesse melhor, dizerem “vamos novamente trazê-los cá”.

IS: Algumas escolas preocuparam-se.

TL: Sim, algumas sim e temos feito, porque entenderam que nós, tanto as salas como as companhias, têm regras extremas. Nós temos regras da covid-19 e quando vamos a uma escola raramente estamos com a professora e evitamos estar com as crianças, aliás, não estamos. Nós temos uma distância que é considerável, que é aquela pedida pela DGS, montamos os cenários e estamos sempre higienizados e com máscara. Nós temos os maiores cuidados e temos uma equipa grande que se preocupa com a saúde tanto dos professores, como dos alunos, que é o que é verdadeiramente importante. Todavia, nós sentimos um pouco: “cancelou e depois vê-se” e claro que as despesas em casa não é depois vê-se, é paga-se.

IS: A culpa não é só com as escolas, foi um abandono a nível geral. Não foi está fechado, está fechado, porque o nosso trabalho não é, acho eu, um trabalho muito visto como um trabalho. O teatro, no geral, não é considerado trabalho. Existem uns quantos, que as pessoas consideram trabalho, e há muitos atores por aí, mas de resto não e eu vi muita gente a desistir da área, porque não existem condições. Já era difícil antes, então quando de facto não dá para fazer, então mais vale desistir e procurar outra coisa, porque a ajuda é nula e é cada um por si.

 

Depois da cultura ter estado parada durante meses, como foi regressarem ao palco da Sala Estúdio Latino do Teatro Sá da Bandeira?

TL: Foi ótimo, o nosso regresso foi com o espetáculo “Os Piratas também se apaixonam” e, para nós, foi muito positivo, porque precisávamos, tanto é que se notou nos espetáculos a forma como o público aderiu, pois esteve sempre esgotado. Posso dizer-lhe foi um respirar de alívio constatar que as pessoas ainda nos querem ver, verificar que pessoas novas nos procuraram e, depois, perceber que, a partir da reabertura, algumas escolas tiveram logo a preocupação de nos contactarem e remarcarem. Nós sentirmos tanto a procura, que abrimos novas datas e, aos poucos, estamos a regressar.

IS: Foi bom ver a disponibilidade e a participação das pessoas.

TL: Foi bonito irmos buscar e recordarmos cenários que já não nos lembrávamos que tínhamos ou relembramo-nos, nos ensaios, de momentos que passamos juntos há mais de um ano. Alguns espetáculos já não fazemos há mais de um ano e sentíamos aquela saudade, mesmo a saudade de contracenarmos. Isto foi muito interessante, porque o público esteve sempre, mesmo em tempo de pandemia, muito próximo da cultura. Eu acho que foi bom perceber que muita gente apoiou a cultura. Eu acredito que o povo esteve sempre para nós, tanto que nós tínhamos pessoas que compravam bilhetes, mesmo sabendo que a Sala não ia estar aberta nesse mês e diziam que depois remarcávamos o espetáculo. Eu acho que foi uma coisa muito fixe e que nós tivemos bastante apoio e isso fez-nos continuar. A estrutura nunca pensou em parar e o que nos dava motivo para fazer coisas, para pensar em coisas eram as mensagens que íamos recebendo, tal como o que as pessoas nos iam pedindo e isso deu-nos um alento para percebermos que nem tudo estava mau e que havia esperança para melhorar. Tanto é que nós ensaiamos ”As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho”, em tempo de pandemia.

 

Quais são os vossos maiores sonhos para a Porta 27?

TL: A Sala Estúdio Latino tem sido uma casa para nós e o Teatro Sá da Bandeira tem-nos ajudado a crescer, enquanto estrutura, e individualmente tem-nos dado uma maior visão artística, tanto que o pessoal da área já começa a ver os nossos espetáculos para a infância, porque temos feito tanto, que a nossa voz começa a chegar a mais vozes. Relativamente aos sonhos, nós pretendemos expandir a nível internacional. A estrutura sempre teve muitos planos de fazer os projetos não só em território português e de começar a passar para a sala grande. Eu acho que um sonho meu era nunca deixar de fazer esta Sala Estúdio Latino, porque gosto muito da proximidade entre os expectadores, os atores e o espetáculo, mas gostava de passar para a sala grande. E o maior sonho era ter uma estabilidade para a minha equipa, no sentido de a estrutura estar bem, ao ponto de quem trabalha connosco também estivesse bem. Eu quero que toda a gente que faz parte da Porta 27 viva da área e não sobreviva. A curto prazo, nós começamos, em tempos pandémicos, com uma formação, isto é, nós começamos com as formações para a infância e houve muita procura, muitos pais querem que as crianças passem a formação connosco, porque são formações um pouco diferentes, não melhores, nem piores do que as que existem no mercado, mas são mais objetivas, para a criação de um espetáculo. Neste seguimento, nós gostávamos de começar a criar uma pequena Escola da Porta 27 e, se Deus nos ajudasse, com vários polos a nível de território. Porém, vamos ver o que é que vai acontecer nos próximos anos.

 

Relativamente à agenda, quais são as datas dos próximos espetáculos?

TL: Em junho vamos ter ”As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho”, depois, em julho, os nossos quatro espetáculos vão decorrer durante quase todos os fins de semana. Vamos estrear agora, em junho, o “Querido Luís”, que, depois, se Deus quiser, vai partir para as ilhas. Nós vamos para os Açores e para a Madeira com ”As aventuras do Lobo Faminto e a Capuchinho Vermelho”, mas vamos levar connosco o “Querido Luís” e vamos apresentar-nos ao público geral, também, nas ilhas. Se Deus quiser, partimos para a Suíça antes de irmos para os Açores e estreamos “Os Piratas”. Nós tivemos um desafio de levantarmos um espetáculo que é “Os Piratas” de Manuel António Pina, que faz parte do Plano Nacional de Leitura e que eu creio que é do 5º ano, e dizem que é uma obra bastante estudada nas escolas e que para os alunos é um pouco difícil e mesmo para os professores explicarem aquela história. Então, nós vamos fazer esse espetáculo, que tem de estrear em dezembro deste ano ou em janeiro de 2022. A companhia decidiu que, durante um período de um ano, ou um ano e meio, vai saturar as produções que tem, que já são bastantes, para chegar a mais pessoas, porque nós passamos três anos a criar e agora estamos numa fase em que queremos, também, respirar um pouco, para termos tempo para fazer projetos fora da Porta, porque consumimos 99% do nosso trabalho e, agora, como auxiliamos um pouco a programação da Sala Estúdio Latino e ela encontra-se com bastante procura, nós queremos conciliar tudo. Também temos o “Auto da Barca do Inferno”, que está em carteira há dois anos. O espetáculo está todo montado há dois anos, mas falta o brio, o “Auto da Barca do Inferno” faz parte do PNL e nós queremos fazê-lo de uma forma que achamos que é cativante, mas existem algumas cenas que ainda não estão como nós queremos, então temos decidido sempre que agora não é o momento.

IS: A pandemia, também fez com que parássemos o processo todo.

TL: As escolas pararam e não fazia sentido levantar um espetáculo, sem haver procura para o mesmo.

IS: Eu acho que voltarmos a fazer “Senhor Camões, Terra à Vista” é um objetivo.

TL: “Senhor Camões, Terra à Vista” é um espetáculo diferente e é um espetáculo que tem uma dimensão muito grande, em termos de cenário. Esta produção, apesar de trabalhar parte do PNL e da obra “Os Lusíadas”, de Camões, é um espetáculo que tem uma estrutura muito grande e só é viável se for feito em auditórios e é uma coisa muito difícil de conseguirmos agora, atualmente, com as novas regras escolares que existem, porque é difícil termos os alunos todos juntos e mesmo também porque muitas câmaras deixaram de apoiar as escolas em termos de transportes, por isso é complicado. Nós já tentamos fazer esse espetáculo numa escola, na Covilhã e sentimos que não é produtivo para nós, porque o resultado não é o desejado, então mais vale não fazer, por isso é que paramos o espetáculo. Eu creio que o “Querido Luís” nos abrirá portas para o público geral, porque para as pessoas começarem a ver-nos em espetáculos como o “Senhor Camões, Terra à Vista” têm de começar a ver-nos com o “Querido Luís”, porque é uma coisa mais acessível. Eu acredito que o “Querido Luís” é um ponto de partida para, mais tarde, fazermos um espetáculo diferente.

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